A doutora Jaqueline Aparecida de Oliveira, egressa do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia Agrícola (PPGMBA), acaba de receber Menção Honrosa no Prêmio Capes Tese por sua pesquisa de doutorado, defendida no ano passado. O reconhecimento destaca a originalidade, a relevância científica e o potencial de aplicação de um trabalho pioneiro sobre fungos endofíticos associados às raízes da macaúba, uma planta nativa brasileira com grande potencial para a produção de óleo e para o desenvolvimento de uma agricultura mais sustentável.

Orientada pelo professor Olinto Liparini Pereira, do Departamento de Fitopatologia da UFV, a tese reúne cinco capítulos e um apêndice, que apresentam uma trajetória de pesquisa construída a partir de um problema concreto da cadeia produtiva da macaúba e que avançou para a descoberta de novas espécies e de um novo gênero de fungos, além do desenvolvimento de uma tecnologia com potencial de aplicação no controle biológico de doenças.

Quatro dos capítulos da tese foram publicados como artigos científicos antes da defesa, enquanto o quinto, uma revisão de literatura, já havia sido aceito na época e, um ano depois, também já está publicado. O trabalho resultou ainda em um pedido de patente já  depositado junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

De um problema à descoberta de novos fungos
A pesquisa teve origem em uma demanda concreta da cultura da macaúba: a ocorrência de uma doença que afetava mudas em viveiros e provocava prejuízos à produção, conhecida como podridão radicular e basal do caule. No primeiro capítulo da tese, Jaqueline e seus colaboradores elucidaram a etiologia da doença, identificando o oomiceto Phytophthora palmivora como agente causal da podridão.

Essa identificação abriu caminho para uma segunda etapa da pesquisa: buscar, entre os próprios microrganismos associados à planta, alternativas capazes de combater a doença. Para isso, foram acessados cerca de 250 isolados de fungos endofíticos provenientes das raízes de macaúbas saudáveis. A prospecção resultou na identificação de três fungos com grande potencial de biocontrole. Dois deles foram descritos em artigo científico, também incluído na tese, enquanto um, por apresentar características inéditas e potencial tecnológico, foi incluído em um pedido de patente.

“Eu acho que a tese foi interessante porque foi o processo natural. Quando fui defender, eu ainda pensei: ‘Como eu reuniria todas essas informações?’. Mas aí percebi que eu não precisava juntar nada, era só contar como aconteceu. A tese tem uma sequência lógica e real de acontecimentos”, explica a pesquisadora.

Biodiversidade brasileira revelada nas raízes da macaúba
Se os dois primeiros capítulos partiram de uma necessidade aplicada, os capítulos seguintes ampliaram a contribuição da pesquisa para a construção de conhecimento sobre a diversidade de fungos no Brasil.

Durante a investigação, Jaqueline identificou vários organismos que representavam novidades taxonômicas. Dois deles deram origem às novas espécies Pseudophialophora endophytica e Pseudophialophora chlamydospora, descritas no terceiro capítulo da tese. No quarto, foi descrito um novo gênero de fungos do grupo conhecido como Dark septate endophytes (DSE).

Esses fungos, que vivem associados aos tecidos das plantas, ainda são pouco estudados, especialmente no que diz respeito à sua diversidade, taxonomia e potencial de utilização. A própria experiência de Jaqueline durante a pesquisa evidenciou a existência de importantes lacunas de conhecimento sobre esse grupo.

“Muitas perguntas ainda não tinham sido respondidas. Então, eu e meu orientador pensamos que valia a pena fazer uma revisão de literatura sobre esse grupo, porque não havia nada atual abordando essas questões”, conta ela, explicando o quinto capítulo da tese. O trabalho buscou organizar o conhecimento disponível, discutir as dificuldades relacionadas à taxonomia desses fungos e apontar oportunidades para novas pesquisas.

No apêndice, a pesquisadora apresentou então o pedido de patente de uma formulação de produto biológico que tem como princípio ativo um dos fungos encontrados nas raízes da macaúba. A proposta é avançar no desenvolvimento de uma alternativa biológica para o controle de doenças, reduzindo a dependência de insumos químicos e contribuindo para sistemas de produção mais sustentáveis.

A combinação entre descoberta científica, descrição da biodiversidade e busca por aplicações práticas é um dos aspectos que conferem à tese seu caráter multidisciplinar. Ao longo do doutorado, Jaqueline transitou por diferentes áreas da microbiologia e da fitopatologia, passando pela etiologia de doenças, bioprospecção, taxonomia, revisão de literatura e desenvolvimento de tecnologia. “Tenho muito orgulho disso, porque atuei em todas as áreas do laboratório”, afirma.

Ciência brasileira, cultura nativa
A pesquisa de Jaqueline chama atenção também por colocar no centro da investigação uma espécie nativa brasileira que ainda possui lacunas importantes de conhecimento científico.

A macaúba tem despertado interesse por sua elevada capacidade de produção de óleo e por seu potencial para integrar cadeias produtivas relacionadas aos biocombustíveis. Ao mesmo tempo, sua elevada produção de biomassa e suas características agronômicas fazem da espécie uma alternativa de interesse para estratégias relacionadas à sustentabilidade e à transição para sistemas produtivos de menor impacto ambiental.

Nesse contexto, compreender os microrganismos associados às raízes da macaúba significa ampliar o conhecimento sobre a própria biodiversidade brasileira e identificar recursos biológicos que podem contribuir para a agricultura.

“Para mim, isso tem muito valor, porque o Brasil é um país que abriga uma grande biodiversidade. Trabalhei com uma cultura nativa e com grupos de fungos que encontrei no nosso território. Isso mostra que as coisas do nosso país têm valor”, destaca a pesquisadora.

Pós-doutorado
Os resultados obtidos durante o doutorado não encerraram a investigação. Pelo contrário, deram origem a uma nova etapa da pesquisa desenvolvida atualmente por Jaqueline. Agora, a pesquisadora trabalha para avançar suas pesquisas sobre os três fungos identificados como potenciais agentes de controle utilizando testes in vivo, passo importante para aprofundar a avaliação do potencial dos isolados, especialmente daquele associado ao pedido de patente.

O projeto foi aprovado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG) com uma classificação de destaque no concorrido processo seletivo. Entre os objetivos estão investigar a produção do fungo em maior escala, avaliar sua eficiência em condições mais próximas da realidade agrícola e verificar seu potencial de aplicação em diferentes culturas e condições. “Esse também é, inegavelmente, um fruto e um reconhecimento do trabalho feito durante o doutorado.” 

Formação científica e autonomia
Para Jaqueline, o reconhecimento também representa a confirmação de uma trajetória marcada por desafios e aprendizado. Quando ingressou no laboratório, ela ainda não havia trabalhado com fungos. “Eu não via o desafio como uma coisa difícil. Eu via mais como: ‘Nossa, eu vou aprender a fazer isso também’. Eu via como uma oportunidade, com curiosidade para experimentar aquilo”, relata.

Ela destaca também a importância da orientação recebida durante o processo. Para a pesquisadora, a confiança e o estímulo do professor Olinto foram fundamentais para que ela pudesse assumir desafios em áreas nas quais ainda não tinha experiência. “Foi um trabalho realmente em conjunto com ele. Eu hoje eu tenho uma independência intelectual bem construída, mas ainda conto muito com os insights dele, com o olhar visionário que sempre enxergou o potencial deste trabalho.”

A Menção Honrosa representa, para Jaqueline, não apenas o reconhecimento de um trabalho bem conduzido, mas também a valorização de uma pesquisa voltada para recursos biológicos brasileiros e para a solução de problemas reais da agricultura. 

Para o professor Olinto, o prêmio consolida a excelência e o impacto nacional de uma pesquisa desenvolvida na fronteira entre a ciência básica e a inovação aplicada. ”A premiação reforça a urgência de se mapear e compreender a biodiversidade fúngica do ecossistema brasileiro, demonstrando que o estudo taxonômico e funcional de grupos ainda pouco explorados, como os Dark Septate Endophytes (DSE), é o alicerce indispensável para transformar a riqueza microscópica da nossa microbiota em tecnologias aplicadas, bioinsumos inovadores e patentes voltadas ao desenvolvimento agrícola sustentável.”