A doutoranda Thaynara Lorenzoni Entringer, do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia Agrícola (PPGMBA), realizou, entre os dias 27 de julho e 7 de agosto, uma etapa de sua pesquisa na Escola de Engenharia de Lorena (EEL) da Universidade de São Paulo (USP). Thaynara esteve no Laboratório de Biopolímeros, Biorreatores e Simulação de Processos (LBBSIM/USP), sob supervisão do professor Júlio César dos Santos, onde participou da produção e caracterização de 300 litros de hidrolisado hemicelulósico de bagaço de malte.

A atividade está diretamente relacionada à tese de doutorado de Thaynara, desenvolvida no Laboratório de Fisiologia de Microrganismos (LABFIS/Bioagro), sob orientação do professor Wendel Batista da Silveira. Essa etapa da pesquisa tem como foco a utilização do hidrolisado de bagaço de malte como fonte de carbono para o cultivo da levedura Candida maltosa, visando à produção de lipídios microbianos. O objetivo é oferecer à indústria de alimentos uma alternativa mais sustentável na produção desses lipídios, hoje provenientes de monoculturas e animais.

O trabalho de doutorado da estudante está estruturado em quatro eixos principais: a otimização e o escalonamento da produção e extração de lipídios por Candida maltosa em hidrolisado de bagaço de malte; a avaliação da viabilidade técnico-econômica do processo; a análise da toxicidade e do efeito nutricional dos lipídios produzidos em modelos animais; e a investigação do potencial tecnológico desses lipídios para aplicação na indústria de alimentos.

Para viabilizar as etapas da pesquisa em maior escala, Thaynara e a equipe do LABFIS estabeleceram parcerias com cervejarias da região de Viçosa — Viçosa Bier, Minas Bier e Veterana — para a obtenção do bagaço de malte, um subproduto gerado durante a produção do mosto para fermentação de cervejas. Após a coleta e a secagem do material, foi necessário realizar seu processamento em escala piloto, atividade desenvolvida durante a estadia na EEL/USP.

“Como boa parte da pesquisa será conduzida empregando os lipídios produzidos por essa levedura em hidrolisado de bagaço de malte, era preciso produzir o hidrolisado em escala maior que a comumente empregada no laboratório”, explica a doutoranda. Segundo ela, a experiência no LBBSIM permitiu realizar treinamento em procedimentos relacionados à produção e caracterização do hidrolisado e, ao final, obter 300 litros do material, que serão utilizados ao longo de seu doutorado e também em outras pesquisas desenvolvidas no LABFIS.

Além de contribuir diretamente para o desenvolvimento experimental da tese, a atividade proporcionou à pesquisadora contato com novos equipamentos, como o biorreator com capacidade de 30L utilizado para a hidrólise, e protocolos, como o de caracterização cromatográfica do hidrolisado. Para Thaynara, o intercâmbio também representou uma oportunidade de ampliar sua formação e estabelecer novas conexões acadêmicas. “Creio que essa oportunidade de intercâmbio com outros laboratórios, universidades e pesquisadores é muito enriquecedora, tanto profissional quanto pessoalmente. Além de possibilitar a construção de uma nova rede de contatos, permite conhecer diferentes perspectivas e técnicas em nosso campo de pesquisa, bem como novas formas de enxergar e construir a carreira acadêmica.”

A atividade integra o projeto FINEP “Produção de misturas de óleos de leveduras e microalgas como novos ingredientes para a fabricação de produtos cárneos feitos de plantas”, que reúne pesquisadores da UFV, da USP e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O projeto busca desenvolver alternativas às gorduras de origem animal para aplicação em alimentos, utilizando lipídios microbianos e valorizando subprodutos agroindustriais.

Nesse contexto, o aproveitamento do bagaço de malte como substrato para a produção de compostos de interesse biotecnológico contribui para uma abordagem baseada na bioeconomia circular, ao transformar algo que seria descartado em matéria-prima para a obtenção de produtos de maior valor agregado. “Agora vamos investigar se esses lipídios possuem, além de benefícios ambientais, benefícios funcionais”, diz a pesquisadora.