Comemorado nesta quarta-feira, 17 de setembro, o Dia Internacional do Microrganismo convida a sociedade a voltar os olhos para o universo que, embora invisível a olho nu, faz parte da rotina de tantos pesquisadores e pesquisadoras do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia Agrícola (PPGMBA). Fundamentais para a manutenção da vida e para o desenvolvimento da ciência, bactérias, fungos, protozoários e vírus estão presentes no solo, na água, no ar, nos alimentos, nas plantas e no corpo humano, desempenhando funções que vão muito além daquelas associadas às doenças.
A escolha do dia 17 de setembro está relacionada a um episódio que entrou para a história da ciência. Nessa data, em 1683, o holandês Antonie van Leeuwenhoek enviou uma carta à Royal Society of London na qual descreveu, pela primeira vez, organismos microscópicos vivos que havia observado com microscópios construídos por ele próprio. Entre as amostras analisadas estava a placa dentária humana, na qual identificou o que chamou de “animaláculos”.
A observação de Leeuwenhoek lançou as bases para o desenvolvimento da Microbiologia e representou um salto no conhecimento sobre a vida. Mais de três séculos depois, o episódio continua sendo lembrado como símbolo da curiosidade científica e da capacidade humana de investigar aquilo que não pode ser percebido diretamente.
Para a professora titular do Departamento de Microbiologia da UFV, orientadora do PPGMBA e coordenadora do Laboratório de Genética Molecular de Bactérias (LGMB/Bioagro), Denise Mara Soares Bazzolli, a data tem um significado que ultrapassa a celebração de um marco histórico. “É o reconhecimento de que a vida humana no planeta Terra depende de seres microscópicos.” Apaixonada por biografias e pela história da ciência, Denise destaca também o significado especial da trajetória de Leeuwenhoek. Para ela, a história do pesquisador, que construiu seus próprios microscópios e investigou amostras presentes no cotidiano, representa a própria essência da ciência: a curiosidade diante do desconhecido e a busca por respostas.
Criado em 2017 por iniciativa da Sociedade Portuguesa de Microbiologia, o Dia Internacional do Microrganismo busca justamente ampliar a percepção da sociedade sobre esses seres. Desde 2020, a iniciativa também conta com a coordenação da Federação das Sociedades Microbiológicas Europeias (FEMS). A proposta é dar visibilidade à diversidade e à importância dos microrganismos, aproximando a microbiologia da sociedade e incentivando o interesse pela ciência e pela formação de novos pesquisadores.
Muito além das doenças
Durante muito tempo, a relação da sociedade com os microrganismos esteve fortemente associada às doenças infecciosas e aos agentes patogênicos. A professora Denise observa, porém, que essa percepção vem mudando gradualmente. “A pandemia de COVID-19, apesar de dolorosa, trouxe um efeito colateral importante: a população passou a conversar sobre genoma de vírus, testes de PCR e variantes no jantar em família”, afirma. Segundo ela, esse período contribuiu para tornar mais visíveis a microbiologia e suas aplicações no desenvolvimento de tecnologias, vacinas, métodos diagnósticos e alimentos.
Ao mesmo tempo, cresce o reconhecimento dos chamados “microrganismos do bem” e de suas inúmeras funções, como produção de alimentos, fertilidade dos solos, decomposição da matéria orgânica, fixação biológica de nitrogênio e desenvolvimento de soluções para uma agricultura mais sustentável. Para Denise, essa mudança de percepção é especialmente importante diante dos desafios ambientais contemporâneos. “Os microrganismos são os verdadeiros guardiões da vida na Terra”, destaca.
Uma nova geração de microbiologistas
A celebração também é uma oportunidade para reconhecer quem dedica sua trajetória profissional a compreender esse universo microscópico – professores, pesquisadores e, claro, mestres e doutores em formação. Denise acompanha de perto a formação da nova geração de cientistas e demonstra entusiasmo com os jovens que chegam à pós-graduação. “Tenho um orgulho imenso em acompanhar os jovens que ingressam na nossa pós-graduação”, afirma.
A professora destaca que esses estudantes chegam à ciência com competências que ampliam significativamente as possibilidades de investigação. O domínio de ferramentas ômicas, bioinformática e inteligência artificial permite explorar questões que, há algumas décadas, sequer poderiam ser imaginadas. Ao mesmo tempo, a integração da microbiologia com áreas como engenharia de bioprocessos e biologia sintética abre novas possibilidades para a pesquisa e a inovação. Outro aspecto destacado por Denise é o engajamento social dessa nova geração. “É uma geração que já nasce compreendendo a relevância da divulgação científica e do impacto direto da pesquisa na comunidade”, observa. Na sua visão, esses jovens têm condições de construir uma ciência cada vez mais integrada e voltada para questões globais, como a resistência aos antimicrobianos e as mudanças climáticas.
No Brasil, a microbiologia também ocupa uma posição estratégica. A diversidade de ambientes e biomas do país oferece um patrimônio microbiológico de enorme importância científica e tecnológica. “A microbiologia brasileira é marcada pela resiliência, criatividade e altíssimo nível de seus pesquisadores”, pontua. Nossa biodiversidade também representa uma fonte de possibilidades. Amazônia, Cerrado, Caatinga e Pantanal abrigam uma enorme diversidade microbiana que começa a ser explorada em busca de novos conhecimentos e produtos tecnológicos. A professora ressalta ainda a contribuição brasileira para pesquisas relacionadas às arboviroses, doenças negligenciadas e resistência aos antimicrobianos.
Sem fronteiras
A atuação dos microbiologistas brasileiros ultrapassa as fronteiras nacionais. Para Denise, os profissionais brasileiros carregam características como versatilidade, resiliência e capacidade de trabalhar em redes colaborativas. Valorizar esses pesquisadores e criar condições para que desenvolvam suas atividades no país é fundamental para ampliar o impacto da ciência brasileira. “Celebrar uma data como essa é celebrar o marco da vida e estimular a sociedade a usufruir destes seres minúsculos que mudam, transformam, recuperam e mantêm a vida humana”, conclui a professora.
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