Um estudo desenvolvido no Laboratório de Micologia e Etiologia de Doenças Fúngicas da UFV, coordenado pelo professor Olinto Liparini Pereira, orientador do Programa de Pós-Graduação em Microbiologia Agrícola (PPGMBA), amplia o conhecimento sobre a diversidade de fungos associados às raízes de orquídeas nativas do Brasil. Publicado na revista IMA Fungus, o artigo “Diversity and taxonomy of endophytic Chaetomiaceae (Sordariales) associated with roots of wild Orchidaceae in Brazil” identifica 22 espécies de fungos da família Chaetomiaceae, sendo dez delas novas para a ciência.
O trabalho também presta uma homenagem à professora aposentada Maria Catarina Megumi Kasuya, ex-coordenadora do programa. Dentre as dez novas espécies descritas, uma foi batizada Arcopilus kasuyae, um reconhecimento pela trajetória e contribuição da professora para os estudos de fungos associados às orquídeas no Brasil.
“Catarina tem muitos trabalhos, muitos projetos nessa área de fungos associados a orquídeas, tanto fungos micorrízicos quanto fungos endofíticos, e abriu muitas portas e caminhos para todos nós”, destaca Olinto, ex-orientando da professora. “Ela teve um papel determinante em minha formação. A liberdade oferecida para conduzir a pesquisa no tema de minha escolha e a postura de sempre acreditar na minha capacidade acadêmica, impulsionaram o início da minha trajetória como pesquisador”.
Se dizendo lisonjeada pela homenagem, a professora conta que Olinto foi o primeiro de seus estudantes a se interessar por essa linha de pesquisa, iniciada na década de 1990. Depois, eles foram parceiros de projetos de pesquisa relacionados ao tema, somando dez dissertações e quatro teses. “Vejo assim a importância de ter iniciado essa pesquisa no PPGMBA, e noto que deixo um legado pelas parcerias e recursos humanos formados, bem como pesquisadores estimulados a seguirem com essa linha de pesquisa”.
Catarina ainda destaca o fato de que poucos são os cientistas com seus nomes eternizados em uma espécie de fungo. “Inclusive, publicada em uma revista de alto impacto e de leitura obrigatória dos micologistas. As informações contidas no artigo são muito relevantes pois, além de descreverem novas espécies, mostram o quanto precisamos investigar para ampliar nosso conhecimento sobre a diversidade fúngica associada às orquídeas nos biomas brasileiros.” Além de Olinto, assinam o texto a egressa do PPGMBA Jaciara dos Santos Santana e os pesquisadores Danilo Oliveira Ramos, Pedro Thiago Santos Nogueira e Thiago Oliveira Condé.
Diversidade
O material utilizado no estudo foi coletado entre 2000 e 2024, em locais como a Mata da Biologia e a Mata do Paraíso, na UFV, e áreas da Serra do Brigadeiro. Mais de 12 espécies de orquídeas foram analisadas. A partir das raízes, os pesquisadores isolaram fungos endofíticos, que vivem no interior dos tecidos vegetais, e realizaram análises para identificar e caracterizar os organismos encontrados. O levantamento resultou na identificação de 22 espécies de Chaetomiaceae, com a descrição formal de dez espécies até então desconhecidas.
Para Olinto, este é o estudo mais completo e abrangente já realizado sobre a família Chaetomiaceae associada a uma única família vegetal, com ênfase inédita na caracterização de seus representantes endofíticos. Com esses achados pioneiros, a publicação projeta e consolida o grupo de pesquisa como uma referência internacional na área. Os resultados não só ampliam a compreensão sobre a diversidade desses microrganismos, como podem contribuir para pesquisas futuras sobre o potencial biotecnológico desses fungos. Algumas espécies encontradas no estudo já são conhecidas por produzir metabólitos secundários de interesse para diferentes aplicações, inclusive na agricultura e na indústria.
No caso das espécies recém-descritas, ainda são necessários estudos específicos para compreender suas características, funções ecológicas e possíveis aplicações. A identificação desses organismos estabelece, assim, uma base para novas investigações. “Essa ampliação da diversidade fúngica é fundamental para a bioprospecção agrícola, visto que as espécies da família Chaetomiaceae são amplamente reconhecidas pelo elevado potencial no controle biológico de fitopatógenos e na promoção do crescimento vegetal”, destaca o professor. Dessa forma, a descoberta de novos táxons de Chaetomiaceae fornece a base biotecnológica indispensável para o desenvolvimento de bioinsumos agrícolas inovadores, impulsionando o manejo sustentável e integrado de doenças de plantas.

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